Agricultura de baixo carbono: técnicas mais sustentáveis no campo

Agricultura de baixo carbono

Definição

Agricultura de baixo carbono é definida como aquela capaz de reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEEs) advindos da atividade agropecuária por meio de práticas agrícolas e tecnologias que tendem a diminuir a intensidade de emissões. Exemplo simples e prático dessa nova agricultura é a implantação de biodigestores e equipamentos para tratamento de dejetos provenientes das atividades de suinocultura, de forma que se captura e queima-se o gás metano. 

Contexto do Brasil

No Brasil, essa nova tendência pode ser explicada tanto pela necessidade da redução de emissões totais que o setor agropecuário contribui quanto pelas mudanças climáticas que possam impactar diretamente no segmento e trazer desafios ao seu crescimento. Tratando-se das emissões, de acordo com os dados anuais de emissão de gases de efeito estufa no Brasil (Brasil, 2014) o setor agropecuário respondeu por 37% das emissões totais em 2012, junto com o setor de energia do país.

Diante disso, a ideia dessa agricultura mais sustentável no Brasil teve maior visibilidade a partir do compromisso assumido pelo país diante das negociações mundiais. Como prova disso, o Brasil foi o primeiro país a assinar a Convenção-Quadro das Nações unidas sobre Mudança do Clima (CQNUMC). Esse instrumento é considerado como o mais equilibrado e relevante da atualidade no qual representa a preocupação de toda a humanidade diante dos efeitos da aceleração das mudanças climáticas. 

O Brasil foi um dos países emergentes que não foi obrigado a fixar metas de redução de emissões de GEE em acordos internacionais, como o Protocolo de Kyoto. Contudo, o país preferiu apresentar um conjunto de ações voluntárias, conhecidas como Ações de Mitigação Nacionalmente Apropriadas (Nationally Appropriate Mitigation Actions – Namas). Estas ações foram criadas para diminuir as emissões de GEE durante a realização da 15ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP-15). 

Na conferência, o país se comprometeu em reduzir entre 36,1% e 38,9% suas emissões de GEE em relação às emissões projetadas para até 2020. Para que isso fosse atingido, inicialmente, foi proposto um programa de ações voluntárias que tinha os seguintes objetivos:

  • reduzir em 80% e 40% a taxa de desmatamento na Amazônia e no Cerrado, respectivamente; 
  • adotar, na agricultura, a recuperação de pastagens degradadas; promovendo práticas como a integração lavoura-pecuária (iLP); 
  • ampliar o uso do Sistema Plantio Direto (SPD) e da Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN);  
  • aumentar a eficiência energética, o uso de bicombustíveis, a oferta de hidrelétricas e de fontes alternativas de biomassa, de energia eólica e de pequenas centrais hidrelétricas, assim como expandir o uso de carvão de florestas plantadas, na siderurgia. 

Mais a frente, outras ações foram incorporadas nos compromissos relativos à agricultura e pecuária. Essas ações foram: adotar o sistema de integração lavoura-pecuária-floresta (iLPF) e ampliar os sistemas agroflorestais (SAF); e intensificar o processamento e tratamento de dejetos animais.

Plano ABC e suas particularidades

O Plano ABC, também conhecido como Economia de Baixa Emissão de Carbono é um dos vários planos setoriais elaborados de acordo com o artigo 3º do Decreto nº 7390/2010 (Brasil, 2010). O plano objetiva a organização do planejamento de ações a serem realizadas para aumentar a adoção das tecnologias sustentáveis de produção. Na elaboração do Plano ABC foram determinadas metas estabelecidas a partir da identificação do potencial de mitigação da emissão de GEE, conforme mostra a tabela abaixo.

metas estabelecidas para a agricultura de baixo carbono
Metas estabelecidas no Plano ABC para mitigação de GEEs.

Cada meta estabelecida compõe um dos seis programas do Plano ABC, que são eles:  Recuperação de Pastagens Degradadas; Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF) e Sistemas Agroflorestais (SAFs); Sistema Plantio Direto (SPD); Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN); Florestas Plantadas; Tratamento de Dejetos Animais. Sendo um sétimo programa orientado para ações de adaptação às mudanças climáticas.

O maior intuito desse plano é promover sistemas diversificados e de uso sustentável da biodiversidade e dos corpos hídricos, organizando a produção e garantindo a geração de renda, pesquisa na área de melhoramento e recursos genéticos, entre outras iniciativas.  

Ainda sobre o Programa ABC, este permite que uma parcela máxima de 35% a 45% dos recursos financie a recuperação de Áreas de Preservação Permanente (APP) e de Reserva Legal (RL). Essas ações não estão previstas no programa, mas são capazes de reduzir as emissões por meio do sequestro de carbono na vegetação e de potencializar a produção agropecuária sustentável. 

Tecnologias sustentáveis propostas pelo plano ABC

  1. Recuperação de pastagens degradadas 

A degradação de pastagens é o processo da perda de vigor, produtividade e capacidade de recuperação natural da pastagem. Com o avanço da degradação observa-se perda de cobertura vegetal e a redução do teor de matéria orgânica no solo, o que ocasiona a emissão de CO2 para a atmosfera. 

Quando se faz a recuperação das pastagens, via semeadura, adubação e manejo adequado, há a inversão do processo, isto é, o solo passa a acumular o carbono reduzindo sua emissão em pelo menos 60% no sistema de produção.

  1. Integração Lavoura-Pecuária-Floresta

A incorporação de sistemas iLPF promove a fixação do carbono no solo pelo grande capacidade de produzir resíduos vegetais. O plano ABC tem a meta de promover a adoção do sistema iLPF em 4 milhões de hectares, o que corresponde a uma redução de 18 a 28 milhões de toneladas de CO2.

  1. Sistema Plantio Direto (SPD)

Essa tecnologia consiste de um conjunto de práticas que visam conservar o solo e sua cobertura, evitando seu revolvimento excessivo, consequentemente, diminuindo sua exposição e a tendência à erosão. O programa ABC propõe expandir o SPD atingindo uma área total de 33 milhões de hectares. Além disso, apenas o incentivo para a adoção do SPD em 8 milhões de hectares adicionais (800 mil hectares/ano) representa mais de 14,64 milhões de toneladas de CO2 eq. retiradas da atmosfera e retidas na matéria orgânica.

  1. Fixação Biológica de Nitrogênio (FBN) 

A FBN é o processo pelo qual o nitrogênio atmosférico (N2) é capturado por bactérias e convertido em nutriente mineral para as plantas. Essas bactérias são do gênero Rhizobium ou Azorhizobium, as quais vivem em simbiose com plantas, em nódulos localizados nas raízes. Esse processo é relevante na redução da emissão de GEEs relacionados a fabricação e ao uso de adubos químicos.

Durante as etapas de produção e transporte de adubos nitrogenados cerca de 50% das emissões totais são decorrentes do consumo de energia fóssil de fertilizantes nas lavouras. Em média, o uso de 1 kg de fertilizante nitrogenado emite o equivalente a 10 kg de CO2. Dentre as metas do plano ABC, encontra-se a de se incrementar a FBN na produção de 5,5 milhões de hectares e reduzir a emissão de 10 milhões de toneladas de CO2 equivalente até 2020.

  1. Florestas plantadas 

O reflorestamento adotado no plano usa-se das espécies dos gêneros Pinus e Eucaliptos. A área que pretende-se ser reflorestada corresponde a 3 milhões de hectares. Assim, ao final dos 10 anos, o setor de florestas plantadas contribuiria para reduzir em média de 8 a 10 milhões de toneladas de CO2 eq.

  1. Tratamento de dejetos animais

Os processos de biodigestão e compostagem já são conhecidos e proporcionam a redução de custos de produção. Estes evitam o consumo de energia, insumos químicos e diminuem os riscos ambientais. Além disso, reduzem a emissão de GEEs e geram energia por meio da produção de biogás. 

O plano disponibilizou aos agricultores, cooperativas e associações que trabalham na cadeia de suinocultura, bovinocultura e avicultura: investimentos e infraestrutura adequados necessários para a adoção de tecnologias de tratamento de dejetos animais.

Assim, viabilizando a redução da emissão de GEEs e gerando renda. A meta proposta foi o manejo de 4,39 milhões de m³ de dejetos até 2020, reduzindo emissões em até 6,9 milhões de toneladas de CO2.

Para saber mais: https://bit.ly/3oiYvxs

Referências Bibliográficas

BRASIL. Decreto no 7.390, de 9 de dezembro de 2010. Regulamenta os arts. 6o , 11 e 12 da Lei no 12.187, de 29 de dezembro de 2009. Institui a Política Nacional sobre Mudança do Clima (PNMC), e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 dez. 2010a. Seção 1, p. 4.

NOBRE, M. M.; OLIVEIRA, I. R. de (Ed.). Agricultura de baixo carbono: tecnologias e estratégias de implantação. Brasília, DF: Embrapa, 2018. Disponível em: <http://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/197786/1/Livro-Agricultura-baixo-carbono.pdf.>. Acesso em: 21 de out de 2020.

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